Por que é difícil fazer vacinas

Por que é difícil fazer vacinas? – Canal Ciência Todo Dia

Por que é difícil fazer vacinas? Um tema bem propício para a ocasião que estamos vivendo, já que muita informação falsa e distorcida tem sido divulgada nas redes. Pedro Loos, do canal Ciência Todo Dia, traz nesse vídeo uma riqueza de informação e ilustrações tornando esse tema de fácil entendimento.

Acessível em Libras e abaixo texto completo para pessoas com deficiência auditiva.

Quando você quiser ficar fascinado é só olhar para o alto, pro espaço a noite. Só que aí brinque com a sua cabeça e, em vez de pensar no céu como para cima, pense no céu como para baixo, como se você pudesse a qualquer momento cair em direção a vasta escuridão do universo aterrorizante. Ao mesmo tempo, um outro universo incrível está muito mais perto de você do que você imagina.

Esse universo é você e o que está dentro de você e basta você olhar para ponta do seu dedo e imaginar a existência de todo esse universo microscópico composto pelos mais diferentes corpos e seres.

Os seres que vivem aqui são tão pequenos que são capazes de invadir os nossos corpos e nossas células sem que a gente perceba, bastando para isso que você leve a ponta do seu dedo para sua boca ou pro seu nariz; e foi graças ao entendimento de como funciona esse universo na ponta dos nossos dedos que nós fomos capazes de elaborar as vacinas que são substâncias capazes de sensibilizar os nossos corpos ensinando nossas células de defesa a como combater inimigos invisíveis quando a hora chegar.

Ainda assim é difícil entendermos a importância do processo, porque todo ele é invisível a olho nu.

É fácil entender, por exemplo, a importância de se usar cinto de segurança, um capacete, ou mesmo de se exercitar para prevenir danos extremos ao nosso corpo.

Só que quando falamos de vacinas, nós não temos como ver ou sentir diretamente os efeitos imunizantes no nosso corpo. Não só isso, o sucesso de uma vacina é medido pela ausência de qualquer sinal.

A vacina é bem-sucedida quando não acontece absolutamente nada. Mesmo assim muitas de nós já tivemos nossas dores diminuídas ou nossa temperatura baixada graças a algum medicamento que tomamos.

Mesmo que não fosse possível ver cada molécula do remédio agindo separadamente, você não precisa ver algo para aquele algo existir ou fazer efeito. Esse universo microscópico que é onde as vacinas atuam, existe.

Nós chamamos de imunologia o estudo da interação entre moléculas e células que baseia o entendimento das vacinas. Quando vírus invadem o corpo, eles atacam e se multiplicam. Essa invasão se chama infecção e é o que provoca sintomas, causando então a doença.

Mas nós temos no nosso corpo o sistema imunológico que usa várias ferramentas para combater a infecção. As células brancas ou glóbulos brancos estão presentes no nosso sangue e em outros tecidos especialmente para essa finalidade.

O que as vacinas fazem é uma simulação, uma espécie de teatro, cuja audiência são os glóbulos brancos. Essa simulação vai fazer com que as células comecem a trabalhar sem parar, primeiro reconhecendo a vacina. Então são produzidas as moléculas que a vacina está orientando.

Eu vou destacar aqui dois fatores que são chave na ação do sistema imunológico.

O primeiro deles são os anticorpos que são moléculas que atuam como sinalizadores do problema, e eles são bem específicos. Eles se ligam aos vírus e indicam pras células o que devem ser dizimados. Eles são bem específicos para a destruição. Se ele se ligam, aquilo deve ser eliminado.

O segundo é a memória imunológica que é a capacidade que as células de defesa têm de guardar esse conhecimento, de decorar a simulação e a resposta a ela. Muito rapidamente antes de vírus invasores conseguirem causar qualquer sintoma no seu corpo, o seu sistema imunológico já vacinado estará em uma guerra completa contra eles, devastando o exército de vírus antes que eles possam erguer qualquer posto de comando no seu corpo e, assim como em guerras, existem diferentes estratégias de combate.

Nós não temos apenas um tipo de vacina. Existem diferentes tipos, cada uma com uma estratégia particular. A maior parte das vacinas utilizadas hoje incorpora uma forma inativada ou enfraquecido de um vírus.

Só que muito importante: não importa se for a forma inativada ou enfraquecida, nenhuma das duas é capaz de causar doenças, mas ambas provocam as nossas células de defesa e fazem com que elas produzam anticorpos.

Lembre-se da simulação: a vacina mente pro nosso corpo dizendo que ele está sendo invadido, só que por uma versão extremamente fraca do vírus. O nosso corpo se prepara para isso. Então quando o vírus real estiver em nós, nosso corpo já sabe como responder. As vacinas atuais para gripe funcionam assim.

Nós também temos vacinas que podemos chamar de genéticas. O que elas fazem é fornecer para o corpo um fragmento genético de DNA do vírus a ser combatido, ao invés de fornecer o vírus inteiro.

Esse fragmento vai então produzir um RNA mensageiro que vai codificar uma proteína específica do vírus dentro das células da pessoa vacinada.

Isso funciona porque essa é a maneira como a célula funciona. Não importa de onde vem o DNA, ele sempre se submete as suas ordens.

Quando tomamos uma dessas vacinas genéticas, ela manda um fragmento de DNA para nossa célula para que ela produza as proteínas virais. O DNA da célula aceita essa encomenda, lê as instruções e então manda que seja produzido o RNA mensageiro.

Com o RNA mensageiro produzido, as proteínas virais são formadas. A proteína viral pode então estimular o sistema imunológico a produzir anticorpos e ajudar a montar defesas contra o vírus.

Outras vacinas na mesma linha de estudo querem entregar para nossas células o RNA mensageiro já pronto. Nesse caso, as células leem o RNA mensageiro e produzem proteínas virais que provocam a resposta imunológica. Essas técnicas de vacinas genéticas parecem ser bem promissoras e podem permitir que a gente produza vacina em menor tempo.

Outra maneira bastante inteligente de fazer a vacina é usar a estrutura de outros vírus inofensivos como uma espécie de transporte do material genético. Eles entram nas nossas células, inserem o material genético da vacina e provoca uma resposta imunológica de defesa.

E por último nós temos vacinas baseados em partículas que contém pedaços de proteínas virais. Eles não podem causar doenças por que não são vírus reais, mas ainda podem mostrar ao sistema imunológico como são as proteínas do vírus.

Mas antes que uma vacina seja distribuída no mercado, algumas perguntas devem ser feitas: se os seres humanos desenvolveram imunidade, quanto tempo isso durará? A imunidade é de curta duração ou ela será de longa duração? Que tipo de resposta imunológica os desenvolvedores de vacinas devem procurar? Será que ela é segura? Como são administradas a um grande número de pessoas saudáveis?

As vacinas geralmente apresentam uma barreira mais alta de segurança do que os medicamentos administrados a pessoas que já estão doentes. A intenção é proteger as pessoas, por isso, todo cuidado é necessário.

Primeiro acontecem os testes pré-clínicos, quando pesquisadores testam uma nova vacina em cultura de células no laboratório e depois administram em animais como camundongos ou macacos para ver se ela produz uma resposta imunológica. Só depois disso começam os testes com humanos.

Depois dos testes pré-clínicos, vem os ensaios da primeira fase de segurança, que é quando os pesquisadores dão a vacina um pequeno número de pessoas para testar a segurança e a dosagem e também para confirmar se ela estimula o sistema imunológico.

Passou pela primeira fase? Não? Então voltamos aos testes pré clínicos. Passou? Sim? Então agora é hora da segunda fase.

Na segunda fase nós vamos dar a vacina para centenas de pessoas divididas em grupos, como crianças e idosos, para ver se a vacina atua de maneira diferente entre eles. Essa fase é mais uma camada extra de segurança e aí vem nos estudos da fase 3 que são os de eficácia.

Os pesquisadores agora dão uma vacina para milhares de pessoas e esperam para ver quantas serão infectados em comparação com voluntários que receberam o placebo. Os resultados têm que mostrar que pelo menos 50% dos que receberam a vacina ficaram protegidos.

Além disso os estudos de fase três são grandes o suficiente para revelar evidências de efeitos colaterais relativamente raros que podem ainda não ter aparecido em estudos menores. Caso os investigadores observam alguns sintomas preocupantes nos voluntários, todo o procedimento pode ser pausado até que eles conheçam mais detalhes sobre o que aconteceu.

Essa é mais uma etapa de segurança, e assim que eles entenderem o acontecido, eles podem dar continuidade ao processo ou cancelar, o que poderia potencialmente levar o projeto de volta para os estudos pré-clínicos.

Algumas vacinas podem até passar por aprovação limitada antes do final da fase 3, mas isso é considerado perigoso, porque existe o risco de que algo ainda não tenha sido descoberto e aí a vacina estaria falsamente protegendo, o que é um grande risco, porque muito da vacina depende da sua alta eficácia e, se tudo der certo, vem então a aprovação e a vacina pode então começar a ser distribuída para a população.

Em condições normais esses processos acontecem durante anos. Em uma situação de epidemia, a população fica muito ansiosa pelos resultados, porque toda a sociedade está sendo atingida pelos problemas que a doença gera.

Só que infelizmente a ansiedade não consegue fazer o tempo correr mais depressa. Na verdade geralmente é ao contrário e pode exercer uma pressão que fará com que importantes etapas não sejam cumpridas.

O cenário ideal mesmo é que a gente só conheça os resultados depois que uma vacina tivesse aprovação, porque acompanhar o passo a passo pode ser frustrante e gera muita confusão, e mesmo depois que toma vacina e licenciada, os pesquisadores continuam a monitorar as pessoas que as recebem pra garantir ainda mais que a vacina seja segura e eficaz.

E tem outro aspecto importante da vacina: ela só funciona mesmo com todo seu potencial se grande parte da população se vacinar, porque muitas pessoas por razões de saúde diversas não poderão se vacinar.

Então a ideia é de que todos os outros estejam se protegendo, mas que também estejam protegendo os mais frágeis, aqueles que só tem um jeito de se proteger da doença, que é contando com o apoio da comunidade onde vivem.

Toda vez que você toma uma vacina, você não está protegendo só a sua saúde, mas também a saúde de todas as pessoas que moram ao seu redor.

As vacinas são perfeitos exemplos de como nós podemos usar de todo nosso acúmulo de conhecimento para construir uma civilização humana ainda melhor e mais saudável. Muito obrigado e até a próxima.

Ciência Todo Dia – Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCn9Erjy00mpnWeLnRqhsA1g

Instagram: @pedroloos

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