Verbos que não concordam com quem pratica a ação

Uma das primeiras coisas que vimos em aulas passadas é que há verbos que não possuem autonomia para concordar com o referente. Para compreender melhor o sentido dos enunciados, aprendemos na aula Os referentes e suas localizações no espaço o sinal de apontar para referir-se a “eu”, “você”, e outros.

Alguns desses exemplos são recorrentes da aula Verbos para começar a aprender Libras:

Português: Você trabalha fazendo o que?

Libras: Você trabalhar fazer que?

Português: Eu trabalho interpretando aulas, palestras, traduzindo textos…

Libras: Eu trabalhar interpretar aula, palestra, traduzir texto…

Português: O que você gosta de fazer em casa?

Libras: Casa você gostar fazer que?

Português: Eu gosto de estudar.

Libras: Eu gostar estudar.

Tenho tentado evitar me aprofundar em certas teorias, como as gramaticais da língua portuguesa, mas veja duas analogias pra ficar mais fácil de entender.

Na primeira frase em português, “Como você aprendeu língua de sinais?”, o referente é “você”. O verbo concorda com ele ao flexionar-se corretamente como “aprendeu”, ou seja, “você aprendeu”. Uma forma errada onde o verbo não concordaria com o referente teria sido se eu escrevesse: “você aprenderam”. Repare que “aprenderam” não concorda com “você”. Logo, é um uso incorreto.

Em outra frase, “Eu trabalho interpretando aulas, palestras, traduzindo textos…”, o verbo flexionado “trabalho” concorda com o referente “eu”. Não concordaria se fosse algo do tipo: “eu trabalham”. Soa muito estranho para nossos ouvidos, não acha?

O que dizer da língua de sinais? Repare que sempre escrevo as traduções com os verbos na forma infinitiva, como conhecer, trabalhar, estudar, nunca concordando com nenhum referente. Por exemplo: “eu trabalhar interpretar”, “eu gostar estudar”.

Quando aponto e em seguida faço o verbo, indico a quem tal se refere. Então se compararmos as frases traduzidas do português para a Libras, listadas mais acima, percebemos que esses verbos sozinhos, que não se flexionam, não dizem nada. Olhe a diferença em duas frases no português:

Trabalho.

Trabalhar.

Na primeira, o referente “eu” é omitido já que o verbo indica o mesmo. Então, pelo sentido da primeira frase, temos: “Eu trabalho”. Se formos mais além, dizemos ainda que o verbo apresenta o tempo, já que “Eu trabalho” está no presente, diferente de “eu trabalhava” que significa que não trabalho mais, algo passado.

Agora, na segunda, “Trabalhar”? O que quer dizer? Nada. Sozinho não diz nada. Não se flexiona, não indica quem é o referente, não indica em que tempo está.

Para o primeiro caso, “trabalho”, sozinho numa frase, pode ser uma resposta a uma conversa:

– Você trabalha?

– Trabalho.

Como ficaria a segunda frase, “trabalhar”? Pois bem, use sua criatividade, no português pode ser usado de várias formas. Mas o que chamo atenção aqui é que isolado assim não diz muita coisa.

Quando um verbo na língua não concorda com nenhum referente, dizemos que ele é um verbo sem concordância.

A seguir, listo novamente alguns verbos que aparecem na aula Verbos para começar a aprender Libras categorizando-os em dois.

Esses verbos possuem a seguinte característica: são feitos em um ponto de articulação restrito, ou seja, têm que estar em tal local específico, como aparecem. O “conhecer”, encosta no queixo; o “saber”, no lado da cabeça próximo a testa; “ter”, no peito.…; “falar” e “aprender” não são necessários tocá-los no corpo, mas não fogem da região onde aparecem.

Tais verbos precisam de algum sinal ou gesto que indique quem pratica ou quem recebe a ação deles. Já vimos isso ao apontar ou direcionar o olhar.

Veja duas das frases que apareceram na aula Os referentes e suas localizações no espaço:

Português: Eu conheço você.

Libras: Eu conhecer você.

Português: Eu quero falar com você.

Libras: Eu querer falar você.

Alguns verbos da segunda categoria que gostaria de destacar são listados a seguir:

Esses verbos têm a liberdade de serem articulados em qualquer ponto do espaço neutro, localizando o referente assim como os sinais apresentados na aula Referentes que determinam a própria localização, o que significa que sua articulação não se restringe a um local específico. Veja frases que exemplificam seu uso:

Português: Essa escola é boa. Você já estudou ali?

Libras: Escola1 boa. Você estudar1 já?

Português: Nunca mais volto a trabalhar lá.

Libras: 1 eu_voltar1 trabalhar1 jamais1.

Analisemos ambas as frases em Libras. Na primeira, “estudar” não indica quem pratica a ação, por isso primeiro apontei (“você”) e depois fiz o verbo. Contudo, o verbo indica o local do referente, no caso, da escola. Note que em português a sequência é “estudou ali”, enquanto em Libras ao estar numerado “estudar1” o ali está incorporado ao verbo, não precisei apontar.

Na segunda frase, não apontei para mim (“eu”) visto o verbo “voltar” indicar quem pratica a ação. Referenciei o local do trabalho ao fazer o “Lá”; o sinal “trabalhar”, fora articulado neste mesmo ponto.

Assim, terminamos mais uma aula. Se tiver dúvidas, deixe nos comentários. Nas aulas posteriores falarei mais sobre algumas questões envolvendo os verbos. Se tiver gostado, compartilhe o link desta página suas nas redes sociais. Um abraço e até a próxima.

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